Domingo, 14 de Março de 2010

Palmeiras e relvados no sul de Portugal?

 

Eu tenho uma paixão enorme por tudo o que é vegetal...
Bem,... quase tudo!
O meu relacionamento com plantas tem sido basicamente com as alimentares e as de zona mediterrânica. Até agora já construi mais de 400 jardins.
E em cada 100 jardins se fiz 1 de cactus foi muito!
Desses 100 jardins, fiz mais de 75 com relvados e ou com palmeiras.
Em Portugal o antagonismo anda de braço dado com a estolidez! De onde vem esta ideia do relvado com palmeiras?
Provavelmente vem de um misto de ideais de diferentes culturas, mas todos com algo em comum! Prefiro não adjectivar nada nem ninguém, pois iria censurar ou críticar, e não é essa a minha intenção de momento, mas puderei destacar algumas razões mais evidentes que levaram ao aparecimento das palmeiras e relvados:
- O imigrante que viveu um periodo de riqueza nas ex-colónias portuguesas, e saudosista pretende reviver alguma nostalgia introduzindo espécies provenientes desses países tal como a Palmeira.
- O imigrante que viveu na Suiça ou outro país circundante, onde os campos se mantêm verdes todo o ano com excepção na estação da neve
- O emigrante Norte europeu que se maravilha com o clima e deseja practicar sem as mesmas condições climatéricas os seus desportos e actividades culturais e sociais
- O “American dream” e os “Green open spaces” introduzidos pelas posturas de empresas nacionais e estrangeiras face ao americanismo
-Os jardins tipo Estoril –Sol (casino estoril), que incentivaram muitos, principalmente as classes mais altas e novo riquistas. Este género de jardins são directamente descendentes do Jardim tipo  Versailles e similares.
Assim a globalização e as diferentes ideias culturais vão-se apoderando e destruindo a flora natural local. No meu caso onde vivo actualmente vejo quase diariamente novos jardins a serem erguidos seguindo em 70% dos casos o conceito de um canteiro – um relvado com palmeiras-. Este conceito leva a que a alfarrobeira, o medronheiro, o sobreiro, azinheira, romãzeira, nogueira, pereira, zimbro, entre outras tantas, vão literalmente desaparecendo da paisagem cingindo-se a pequenos espaços como as reservas naturais, florestais ou em zona de agricultura ecológica.
No entanto são essas especies vegetais, as autoctones e que fazem parte do nosso eco-sistema local e/ou nacional. Essa plantas além dos frutos, disponibilizam madeira e guarida ás aves e fauna, fornecem um equilibrio natural de prevenção a doenças e pragas auxiliando-se umas ás outras, dispensando ainda os gastos de herbicidas, pesticidas e regas. Promovem a humidade nos solos e ajudam a rete-la pela manhã. Muitas são excelentes sombras e abrigos para os picos estivais.
Veja-se o caso dos relvados – exigem manutenções semanais ou quinzenais da Primavera ao Outono, obrigam à aplicação de 1 adubo de fundo e 2 a 3 adubações azotadas por ano, adubos esses que chegam a percorrer mais de 7000km provenientes das fábricas de origem. Sem contar com os preventivos quimicos esterilizadores de solo para evitar que alguma praga se instale no relvado, e que acabam por se diluir nos lençois freáticos, contaminando-os.
A palmeira – Phoenix canariensis de seu nome latino, não serve para madeira, não serve para ninhos, não dá frutos ou mesmo boas sombras. Tem uns picos que podem até matar chegando a atinjir inclusivamente 40cm de comprido, ou seja autênticos estiletes! Por fim esta árvore dispensa as regas fora do periodo da chuva. É das poucas especies vegetais que vivem no deserto.
 
 Medroneiro com 3 anos. Excelente árvore de fruto. Sombra. Abrigo ás aves. Cresce lentamente e não sofre de problemas tipo "escaravelho da palmeira". Já vi medronheiros com mais de 7 metros de altura. Já é muito bom para os jardins do Sul em substituição às palmeiras.
 
As entidades responsaveis pelo próprio Estado negligenciam este problema, e nem sequer percebem (?) que os gastos dos lençois freáticos são enormíssimos, quando actualmente a preocupação da diminuição dos recursos hídricos é cada vez maior e preocupante.
Uma das soluções é recuperar os nossos espaços verdes com a nossa flora, relvados sim mas só em pontos muitos específicos, ou mesmo usando prados de sequeiro como opção e plantas mediterranicas, que aliás, são bastante apreciadas pelos estrangeiros. Dever-se-à tambem racionar a água, evitando-a de usar indeliberadamente, fiscalizando para esse efeito todas as entidades que a usem com um departamento policial exclusivamente preparado para esse fim – tipo policia da água- tal como já existe em determinados locais do mundo, veja-se o exemplo no Colorado, E.U.A.
Hoje em dia, como profissinal, e quando convidado a fazer relvados com palmeiras, dou alternativas com plantas locais, e em ultimo recurso encaminho o cliente para outro profissional que o faça pois eu, pensando nas minhas filhas e a seguir a ética profissional recuso-me a participar.
A globalização ainda não afectou sob uma forma cívica e racional a informação didáctica disponível para (re)educar todos os cidadãos adequadamente aos grandes desafios relativos às alterações climáticas que se avizinham.
-A Internet é a porta, janela e casa da globalização. É perigosa para quem não sabe usufruir e usar da informação existente, e, depende de quem a abre e como a abre...considero-a a biblia da proxima civilização-
Dessa forma este fenómeno globalizacional tem vantagens e desvantagens. Enquanto os lobbyes forem mais fortes que os interesses das nações e da humanidade, a globalização existirá para os beneficiar. O comum dos mortais, passa pelos (futuros) crimes sem perceber, o quanto de destruidor e negativo tem a implementação de flora estrangeira em habitats sensiveis. Vejamos um caso de globalização ocorrido à quase 200 anos e analise-se as conclusões: o Eucaliptus e a Acácia provenientes da Austrália e introduzidas em Portugal nos meados do século XIX, no jardim de Monserrate em Sintra pelo arquitecto inglês James Burt ou noutros pontos como a reflorestação e a protecção das àreas cultivadas aos ventos marítimos.
Seguindo a mesma lógica de raciocinio do exemplo dado, daqui a 100 anos vamos ter graves problemas com excessos de palmeiras, e recursos hidricos esgotados ou contaminados, no caso da relva será um problema menor visto que morrerá de seca ou será transformada em pastos de herbívoros.
Se não aprendemos com os erros do passado, e se nos recusarmos a auto reeducar e à sociedade, vamos continuar a seguir os passos e cometer erros passados em outras gerações.
Assim sendo que herança deixo à minha filha? Bens materiais em excesso e sintéticos criados pelo homem e uma natureza destruida? Será que é isso que ela vai gostar?
E a herança patrimonial? Natural? ...Mesmo a cultural está totalmente desfigurada...
Reflexão: Veja-se o caso recente da Madeira, acha o leitor que palmeiras são solução para prevenir erosão e quedas abruptas de água e pedras? Ou seria melhor as autoctones lá da ilha, juntamente com cursos de água em zigue-zague e pequenas cascatas de 10 em 10 metros não reduziria substancialmente a velocidade da mesma?
NOTA: Falei unicamente sobre o aspecto negativo relativo a uma das deficiências dos “profissionais” de jardinagem em Portugal. Dever-se-à analisar todos os outros pontos negativos repercutidos em todas as profissões existentes.
sinto-me: angustiado
música: Vivaldi - 4 estações
publicado por reflexoessustentaveis às 21:00
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1 comentário:
De Anónimo a 14 de Março de 2010 às 23:33
http://www.peticao.com.pt/arvores-de-sintra


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